O número de trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão no Paraná registrou aumento de 44,18% em 2025, em comparação com o ano anterior. Dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que foram 62 resgates no último ano, frente a 43 ocorrências registradas em 2024.
O levantamento foi divulgado na semana em que se celebrou o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, lembrado na quarta-feira (28). Em âmbito nacional, foram realizadas 1.594 ações de fiscalização, que resultaram no resgate de 2.772 trabalhadores em todo o país.
A escravidão contemporânea é caracterizada pela submissão do trabalhador a condições degradantes, jornada exaustiva, restrição de liberdade, servidão por dívida ou ausência de direitos básicos. Diferentemente da escravidão histórica, abolida há mais de um século, essas práticas persistem de forma menos visível e muitas vezes naturalizada.
Segundo o Ministério do Trabalho, 68% dos trabalhadores resgatados no Brasil em 2025 estavam em áreas urbanas, o que indica uma mudança no perfil das ocorrências. No Paraná, houve registros de exploração em serviços domésticos, propriedades rurais, usinas e estabelecimentos urbanos.
“O Brasil precisa esquecer esse mito de que o trabalho análogo à escravidão só acontece em fazendas distantes e isoladas. A escravidão contemporânea está muito mais próxima do que a gente imagina”, afirmou o procurador do Trabalho Lincoln Nóbrega. Ele destaca o crescimento de casos envolvendo trabalhadores domésticos submetidos a condições degradantes, sem salário, jornada definida ou garantias legais.
A coordenadora-geral de fiscalização do trabalho, Dercylete Lisboa Loureiro, reforça que o crime não se resume ao cerceamento físico da liberdade. Segundo ela, as violações incluem trabalho forçado, ameaças, jornadas excessivas e condições que comprometem a saúde, a segurança e a dignidade do trabalhador.
“Não vamos encontrar, como regra, pessoas acorrentadas. O que vemos são jornadas exaustivas, ambientes inseguros, ausência de cuidados básicos e situações que colocam a vida do trabalhador em risco”, explicou.
Quando os casos são identificados, os responsáveis respondem criminalmente e são obrigados judicialmente a pagar salários, verbas rescisórias e indenizações. Em 2025, mais de R$ 9 milhões foram pagos a vítimas resgatadas no Brasil. Além disso, o Ministério Público do Trabalho destaca a importância do acompanhamento das vítimas para garantir a reinserção no mercado formal.
No Paraná, a maior ocorrência em 2025 foi registrada em uma usina de produção de açúcar em São Pedro do Ivaí, no norte do estado. No local, 57 trabalhadores foram resgatados, sendo 46 indígenas da etnia Guarani Kaiowá. Eles haviam saído do Mato Grosso do Sul com promessa de emprego, mas foram abandonados em alojamentos sem alimentação, transporte ou itens básicos de higiene, além de não receberem salários nem terem registro em carteira.
Outros casos incluíram o resgate de um casal de trabalhadores rurais em Manoel Ribas, mantidos em condições degradantes apesar de problemas graves de saúde decorrentes de acidentes de trabalho. Em Foz do Iguaçu, um homem foi encontrado em cárcere privado, obrigado a trabalhar em uma tapeçaria, com retenção de benefício social e condições precárias de moradia e higiene.
Também houve registros de exploração em serviço doméstico, em Curitiba, e na construção civil, em Medianeira. Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho, alguns casos noticiados não integram o balanço nacional por critérios técnicos e metodológicos.
No panorama nacional, os dados indicam que 86% dos trabalhadores resgatados eram homens, principalmente na faixa etária entre 30 e 39 anos. A maioria residia na região Nordeste, com destaque para o Maranhão. No recorte racial, 83% se autodeclararam pretos ou pardos. Quanto à escolaridade, 24% tinham ensino médio completo e 8% eram analfabetos.
De acordo com o Ministério do Trabalho, os números evidenciam a relação direta entre trabalho análogo à escravidão e vulnerabilidades sociais estruturais. Denúncias podem ser feitas de forma anônima por meio de sistemas oficiais, permitindo que as autoridades avaliem e fiscalizem as situações relatadas.
G1 Paraná