Em frente a uma loja de informática e papelaria, na Cango, em Francisco Beltrão, Memezão e Dango ficam deitados a maior parte do dia em pleno sossego, à luz do sol. Eles têm água, comida, casinha e a segurança dos comerciantes e moradores da região. Eram cães abandonados e hoje vivem como cães comunitários.
Volmir Iudes da Silva é sócio-proprietário da I9 Informática e Papelaria. Trabalha no local com a esposa e os filhos desde 2014. Também é quem vem cuidando de Memezão e Dango há cerca de três anos. Ele conta que eram três: havia uma cadela branquinha, mas ela desapareceu em um réveillon, e ele nunca mais soube dela. Desde então, ele abriga a dupla que restou nas viradas de ano para que não se assuste com os fogos.
“O Dango apareceu aqui um dia e acabou ficando, a gente foi se solidarizando. O Memezão é um caramelo. Eu encontrei ele no viaduto que passa para o quilômetro 8. Ele estava ali na BR, abaixo da ponte, deitado atrás de uma placa. Eu desci lá olhar e vi que ele estava abandonado. Eu estava de moto e falei assim pra ele: ‘eu vou voltar de noite, se você estiver aqui, eu vou te levar pra casa’. Eu voltei à noite, ele estava deitado no mesmo lugar. Eu abri a porta do carro e ele entrou e vive aqui desde aquele dia.”
Volmir conta que os dois já fazem parte do cotidiano da comunidade local, envolvendo tanto outros comércios quanto moradores. Em frente ao seu estabelecimento, uma farmácia também oferece água e comida diariamente. Vizinhos da região passam pelo local para fazer carinho e deixar um pouco de comida, assim como pessoas de outras partes do bairro que procuram o estabelecimento para saber como podem ajudar. “Esses dias veio uma mulher, tem um restaurante ali pra baixo. Ela disse que às vezes sobra comida e não sabe pra quem dar. Daí ela trouxe até uma baciada de carne para eles. Aqui todo mundo é solidário.”
Comoção com a morte do cão Orelha
Olhando para Memezão e Dango, Volmir se emociona ao lembrar do caso com Orelha, o cão comunitário que foi brutamente morto por adolescentes em Florianópolis no dia 4 de janeiro. Orelha era cuidado por moradores nas redondezas de Praia Brava. O caso ganhou repercussão nacional nos últimos dias, gerando grande revolta nas redes sociais e pedidos por justiça. A morte de Orelha segue sob investigação da Polícia Civil, que também apura tentativa de coação de testemunhas por familiares dos envolvidos.
“Eu não consigo nem ver. Porque é revolta. A gente fica imaginando o cachorro andando na praia, vivendo uma vida feliz, todo mundo cuidando e todo mundo gostando dele. E aí uma crueldade daquele tipo ali. Não dá para entender o que se passa na cabeça dessas pessoas. Só pode que essas pessoas nunca tiveram dificuldade na vida. Como foram fazer isso com um animal que não faz mal a ninguém?”
Volmir teme que situações semelhantes possam acontecer em outros lugares. Ele mesmo relatou ter vivido uma ameaça contra Memezão e Dango dias atrás. “Era um fim de semana, um ciclista passou aqui pela frente e o Memezão correu, mas eles não atacam, eles nunca atacaram ninguém. Eu escutei ele falar que ia encher o cachorro de tiro e levou a mão na cintura. Agora eu fico sempre em alerta. Às vezes eu escuto o cachorro latir e já me dá um negócio.”
Volmir defende mais conscientização e apoio público para com animais abandonados. “Se você vê um animalzinho, cuide. Se é um carro, cuida pra não atropelar. A própria Prefeitura tinha que ter um recurso maior pra esse tipo de situação. Alimentação, tratamento, cirurgia quando precisa.”
Jônatas Araújo/ JdeB