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Por que as crianças estão ficando entediadas cada vez mais rápido?

Excesso de estímulos digitais, menos brincadeiras ao ar livre e mudanças na rotina podem estar reduzindo a paciência para atividades que exigem mais tempo e criatividade

Por que as crianças estão ficando entediadas cada vez mais rápido?
Foto: Freepik | Ilustrativa

Se antes era comum ver crianças brincando durante horas sem reclamar, hoje o tédio pode aparecer em poucos minutos. A dificuldade em permanecer entretido sem o uso de telas tem chamado a atenção de pais e especialistas e levanta uma questão: o que mudou na infância nas últimas décadas?

Um dos principais fatores apontados é o avanço da tecnologia. Celulares, tablets, videogames e plataformas de vídeos oferecem conteúdos e recompensas de maneira praticamente instantânea. Esse contato frequente com estímulos rápidos pode fazer com que atividades mais simples, demoradas ou pouco previsíveis pareçam menos interessantes.

Uma pesquisa realizada pela OnePoll apontou que o tédio pode surgir em cerca de 33 minutos entre crianças de 3 a 12 anos. Já dados de pesquisadores da Universidade de Michigan indicam que o sentimento de tédio entre adolescentes vinha crescendo e ganhou força após a pandemia de Covid-19, permanecendo em alta em 2023.

Além do uso excessivo de dispositivos eletrônicos, a redução das oportunidades de brincar livremente também pode contribuir para esse cenário. Crianças de gerações anteriores tinham mais contato com espaços abertos, brincadeiras espontâneas e interações presenciais. Hoje, questões relacionadas à segurança, mudanças na rotina familiar e o próprio avanço da tecnologia fizeram com que parte dessas experiências se tornasse menos frequente.

O tédio também pode estimular a criatividade

Embora seja normalmente encarado como algo negativo, o tédio não precisa ser imediatamente eliminado. Momentos sem estímulos constantes podem permitir que a criança desenvolva a imaginação, descubra novos interesses e aprenda a criar suas próprias formas de diversão.

Uma das estratégias é incentivar o chamado brincar livre, utilizando brinquedos simples, blocos de montar, massinha, livros, desenhos e materiais de arte. A ideia é permitir que a criança tenha liberdade para decidir o que fazer, sem que os adultos precisem organizar cada minuto do dia.

Também é importante estabelecer uma rotina equilibrada, alternando períodos de tela com brincadeiras, atividades físicas, tarefas domésticas e momentos ao ar livre.

Reduzir as telas pode ajudar

Diminuir o tempo diante de celulares, tablets, computadores e televisão pode favorecer o interesse por outras atividades. A proposta, porém, não precisa ser retirar completamente a tecnologia, mas estabelecer limites e evitar que ela seja sempre a primeira resposta quando a criança diz estar entediada.

Em vez de oferecer imediatamente um celular ou uma nova atividade, os pais podem estimular os filhos a pensar em alternativas. No início, é possível que a criança reclame ou diga que não há nada para fazer. Com o tempo, porém, esse espaço pode favorecer a autonomia e a criatividade.

E os adolescentes?

Entre os adolescentes, o tédio pode estar relacionado a outros fatores. Nessa fase, aumenta a busca por novidades, desafios, autonomia e atividades que tenham significado. Uma rotina considerada repetitiva, combinada ao uso intenso das telas e à redução das interações presenciais, pode intensificar a sensação de desinteresse.

O período de isolamento provocado pela pandemia também teve impacto nesse comportamento. Com escolas fechadas, menos encontros com amigos e redução das atividades físicas e sociais, muitos adolescentes passaram longos períodos dentro de casa.

Para esse público, atividades esportivas, cursos, hobbies, projetos pessoais, encontros presenciais com amigos e atividades extracurriculares podem ser alternativas importantes. Dar mais autonomia para que o adolescente escolha como ocupar parte do próprio tempo também pode fazer diferença.

Quando o tédio merece atenção?

Sentir tédio ocasionalmente é normal. O sinal de alerta aparece quando o desinteresse se torna persistente e vem acompanhado de apatia, falta de motivação ou perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer.

Nessas situações, pode ser importante conversar com um pediatra, psicólogo ou outro profissional de saúde para avaliar o que está acontecendo. O tédio, isoladamente, não significa que exista algum transtorno, mas mudanças persistentes de comportamento merecem atenção.

No fim das contas, o objetivo não deve ser manter crianças e adolescentes ocupados o tempo todo. Aprender a conviver com alguns momentos de tédio também faz parte do desenvolvimento. Com equilíbrio entre tecnologia, brincadeiras, atividades físicas, convivência social e momentos de descanso, esse sentimento pode deixar de ser encarado apenas como um problema e se transformar em uma oportunidade para desenvolver criatividade, autonomia e resiliência.

Revista Pais Filhos 

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