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Brasil vai aos EUA tentar barrar tarifaço de Trump; veja os argumentos da indústria e do agro

Empresas, associações e representantes do setor produtivo brasileiro participam nesta segunda-feira (6) de audiências públicas promovidas pelo governo dos Estados Unidos para tentar evitar a sobretaxa de 25% proposta pela gestão de Donald Trump

Brasil vai aos EUA tentar barrar tarifaço de Trump; veja os argumentos da indústria e do agro
Foto: Sudati/Divulgação

Terminam nesta terça-feira (7) as audiências do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) de uma investigação contra o Brasil sobre supostas práticas danosas à relação bilateral entre os países.

O agronegócio marcou presença na segunda-feira (6), o primeiro dia de discussões, conduzindo falas de tom mais técnico e poucas críticas ao Brasil, com uma narrativa profunda e até uma defesa por parte dos pares norte-americanos sinalizando menor tensão entre o setor privado, apurou o CNN Agro.

Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), que acompanhou os painéis do primeiro dia, relatou que as discussões tiveram um "nível técnico mais elevado e menos perguntas capciosas", o que torna o diálogo "mais seguro junto à autoridade americana".

Nesta terça, estarão presentes, além do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), representantes do setor industrial brasileiro.

Participantes e porta-vozes de entidades que participarão da audiência relataram ao CNN Money que a defesa ao comércio exterior do Brasil vai passar por, além de contestar a validade da investigação, uma ênfase à complementaridade que há entre os negócios brasileiros e norte-americanos e a longa tradição que embasa o relacionamento entres exportadores daqui e compradores de lá.

Complementaridade

O ponto levantado é que a produção brasileira complementa a demanda dos EUA, suprindo a necessidade do que não é produzido lá, de modo que o produto tupiniquim não compete com o yankee, explicam à reportagem Pupo e Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais), entidade filiada à Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais).

Ambas as entidades enviaram representantes para defender o Brasil na audiência do USTR nesta terça.

Desse modo, o impacto não será sentido só pela indústria brasileira, mas também pelo consumidor norte-americano. Um exemplo está no setor de calçados brasileiro, quem tem nos EUA seu principal cliente, uma vez que não têm produção suficiente e precisa de fornecedores externos.

Segundo fonte do setor, que será representado pela Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) nesta terça, o que vai acontecer é que a China vai ganhar ainda mais espaço no mercado dos EUA e o Brasil vai sair prejudicado.

A interdependência entre as partes também é reforçada por Patricia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), entidade que também estará na reunião do USTR.

Ela ressalta que 82% dos negócios do setor ocorrem entre empresas relacionadas do mesmo grupo, de modo que aquilo que afeta um lado, impacta do outro também.

"O comércio é complementar, tem uma cadeia produtiva integrada. Então, qualquer efeito sobre ela promove desorganização e prejuízo para os dois lados", explica.

Tradição

Fausto Cançado fala em "tradição" quando trata da relação de negócios entre brasileiros e norte-americanos.

No caso do setor que representa, é o Brasil que fornece o ferro-gusa que serve de matéria-prima para o aço, o produto de valor agregado que é fabricado nos EUA.

Os EUA têm uma produção de ferro-gusa que supre 6% de sua demanda, enquanto as exportações brasileiras para lá superaram 60% do consumo deles, segundo o presidente do Sindifer.

Desse modo, a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros vai encarecer os produtos para o consumidor norte-americano, caso o importador não desenvolva novos mercados, relembra Paulo Pupo.

O representante da indústria madereira aponta que há um consenso entre produtores e compradores de que não faz sentido taxar os produtos brasileiros, considerando "a relação comercial consolidada há muitas décadas" entre as partes.

O insumo brasileiro "é um produto difícil de substituir", enfatiza Patricia Gomes, apontando para um impacto em todo o setor produtivo norte-americano - desde a indústria e a agricultura até a energia e infraestrutura.

 

"Maquinário não é umbem de consumo, é um investimento. A relação comercial requer negociação e entendimento de médio/longo prazo. Muitos equipamentos exigem certificação, então é difícil fazer a substituição", pondera a diretora da Abimaq.

"Os Estados Unidos são um país que está buscando fortalecer sua indústria, mas a taxação traz prejuízo para essa atividade", conclui, ressaltando a questão da imprevisibilidade que medidas do tipo trazem para os negócios.

Como medida preventiva, a entidade tem orientado seus associados a avaliar a antecipação de embarques para os EUA, como forma de reduzir riscos diante de eventuais mudanças no curto prazo.

Perspectiva

A ouvidoria desta terça é a última chance de a sociedade civil expressar seu posicionamento para a Casa Branca via canais oficiais. Pupo vê o momento como "chave para medir a temperatura da autoridade americana".

No momento, um interlocutor do empresariado destaca que a grande questão do momento é discutir o relatório preliminar, e que não adianta incluir fatores políticos e ideológicos no escopo.

Ao final das reuniões, Pupo observa que o setor privado se torna "passageiros nesse carro".

"Nosso papel tem um limite, o final é governamental", diz.

Além da audiência, o governo federal segue buscando um canal de negociação com Washington. A decisão final sobre a aplicação - ou não - da tarifa de 25% oriunda da investigação comercial contra o Brasil deve ser anunciada no dia 15 de julho.

Contudo, o setor privado reconhece que será díficil o Brasil reverter a imposição da sobretaxa.

"Estive recentemente no Departamento de Estado e no USTR [Escritório do Representante Comercial da Casa Branca], e a mensagem que recebi foi muito clara: os impostos e as taxas serão implementados. Acho muito difícil que, nesta altura, consigamos reverter essa decisão", afirmou em entrevista à CNN Brasil o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Roberto Azevêdo, que representa a indústria nessas audiências.

Assim, as defesas de cada setor serão concentradas em busca incluir seus próprios produtos na lista de exceções.

Mas há a sensação de que as audiência não deverão ser um grande divisor de águas, uma vez que a decisão final será do próprio presidente dos EUA, Donald Trump, e só vai ser revertida se houver negociação efetiva entre Brasília e Washington.

O problema notado é que, apesar de o governo brasileiro estar dedicado ao diálogo, há um problema porque as demandas dos EUA não são claras.

Com informações de Isadora Camargo, do CNN Agro

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