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Bombeiro de Francisco Beltrão integra missão brasileira na Venezuela e relata cenário de guerra após terremoto

Os tremores, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região central da Venezuela no dia 24 de junho, provocando o colapso

Bombeiro de Francisco Beltrão integra missão brasileira na Venezuela e relata cenário de guerra após terremoto
Foto: Reprodução

O cabo Hiago Felipe Zanchet, do Corpo de Bombeiros Militar de Francisco Beltrão, está entre os profissionais brasileiros que participaram da missão internacional de busca e resgate enviada à Venezuela após o forte terremoto que devastou cidades do país no fim de junho.

Os tremores, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região central da Venezuela no dia 24 de junho, provocando o colapso de prédios, destruição de bairros inteiros e milhares de desabrigados. Diante da tragédia, o Governo Federal autorizou o envio imediato de uma missão humanitária composta por bombeiros militares, técnicos da Defesa Civil, especialistas da Anatel, cães farejadores e cerca de 10 toneladas de equipamentos de resgate. A operação foi coordenada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), em conjunto com organismos internacionais.

Entre os integrantes da força-tarefa estava o cabo Zanchet, lotado em Francisco Beltrão e integrante da equipe brasileira BRA-01, especializada em operações internacionais de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas (BREC).

Em entrevista exclusiva ao repórter Patrick Rodrigues, da Rádio Onda Sul FM e Portal RBJ, o bombeiro contou como recebeu a convocação e descreveu os momentos mais difíceis da missão.

Convocação aconteceu em poucas horas

Segundo Zanchet, tudo aconteceu de forma extremamente rápida.

“O terremoto ocorreu na quarta-feira e, na quinta pela manhã, já começaram os preparativos aqui no Brasil. Eu estava trabalhando normalmente no quartel quando, por volta das 14h30, surgiu a relação dos militares que poderiam integrar a missão.”

Voluntário para a operação, ele foi escolhido entre os dez bombeiros paranaenses enviados para representar o Estado na missão internacional.

Em menos de duas horas precisou retornar para casa, organizar equipamentos, preparar bagagem para aproximadamente dez dias de operação e seguir viagem.

O deslocamento começou em Francisco Beltrão rumo a Guarapuava, onde embarcou em uma aeronave da Casa Militar com destino a São Paulo. Depois, a equipe seguiu em avião da Força Aérea Brasileira para Boa Vista (RR) e, posteriormente, para a Venezuela.

“Encontramos um cenário de guerra”

A equipe brasileira foi uma das primeiras forças internacionais a iniciar operações diretamente nas áreas atingidas.

Segundo o cabo, o impacto foi imediato.

“Era um cenário de guerra. Tudo destruído.”

Ainda durante o primeiro reconhecimento, os bombeiros encontraram dezenas de corpos espalhados pelas ruas.

“Precisávamos desviar de corpos nas calçadas. Havia vítimas presas nas estruturas, outras cobertas apenas por lonas. Era uma situação extremamente impactante.”

As equipes descobriram que muitos edifícios completamente reduzidos a montes de concreto tinham originalmente entre 15 e 18 andares.

“Quando chegamos, não tínhamos dimensão do tamanho da destruição. Depois, consultando mapas e conversando com moradores, percebemos que aqueles escombros eram prédios inteiros compactados em apenas três ou quatro metros de altura.”

Missão era encontrar pessoas vivas

O principal objetivo da missão brasileira era localizar sobreviventes.

Para isso, as equipes utilizavam protocolos internacionais INSARAG, equipamentos eletrônicos de detecção e cães farejadores especializados.

O grupo do Paraná contava com dez militares, sendo dois condutores de cães.

Segundo Zanchet, os cães foram fundamentais.

“Era a melhor ferramenta que existia naquela operação. Quando os moradores viam nossos cães, imediatamente pediam ajuda para verificar se ainda existia alguma pessoa viva sob os escombros.”

O bombeiro explicou que sua cadela Frida, conhecida em Francisco Beltrão, não participou da missão porque ainda está em processo de certificação internacional.

“Eu fui como operador de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas, não como binômio com cão.”

O desafio psicológico foi o mais difícil

Durante os 15 dias de missão, o trabalho exigiu resistência física e emocional.

Além das temperaturas superiores a 30°C, dificuldades logísticas e jornadas intensas, havia o sofrimento constante das famílias.

“Nosso objetivo era salvar vidas. Em alguns momentos encontrávamos sinais que indicavam possibilidade de sobreviventes. Começávamos a retirada dos escombros, mas infelizmente os sinais desapareciam.”

Segundo ele, abandonar um local para seguir procurando possíveis sobreviventes em outra área era uma das decisões mais difíceis.

“Você deixa uma família inteira esperando por uma resposta. Isso marca profundamente.”

Francisco Beltrão foi destaque na missão

Zanchet destacou que Francisco Beltrão teve participação expressiva na operação internacional.

Além dele, o capitão Melchior também integrou a missão.

Depois de Curitiba, Francisco Beltrão foi o município paranaense com maior número de militares enviados à Venezuela.

Para o bombeiro, isso demonstra o alto nível técnico da corporação local.

“Temos militares extremamente capacitados. Somos referência em resgate veicular, combate a incêndios, operações com drones, cães de busca e diversas outras especialidades.”

Segundo ele, a participação internacional representa um reconhecimento do trabalho desenvolvido diariamente pelos bombeiros do município.

Uma experiência que transforma

Ao retornar ao Brasil, o cabo afirma que trouxe muito mais do que aprendizado técnico.

A missão também mudou sua forma de enxergar a vida.

“Lá você percebe que tudo pode mudar em segundos. Pessoas estavam em casa normalmente e, de repente, perderam absolutamente tudo.”

Ele lembra de uma cena que nunca esquecerá.

“Nossa base ficava de frente para o Mar do Caribe. Era uma paisagem linda. Mas bastava o vento mudar que vinha o cheiro dos corpos. Essa realidade faz qualquer pessoa refletir.”

Missão brasileira foi reconhecida internacionalmente

A missão brasileira permaneceu aproximadamente 15 dias na Venezuela, integrando a força-tarefa coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Durante a operação, bombeiros brasileiros atuaram em áreas de estruturas colapsadas utilizando sensores de movimento, equipamentos capazes de detectar sinais de celulares e cães farejadores especializados. Após o encerramento dos trabalhos, o Governo Federal destacou o reconhecimento internacional recebido pela atuação das equipes brasileiras durante a resposta humanitária.

Ao encerrar a entrevista, Zanchet resumiu o principal ensinamento da missão.

“Existe uma frase no Corpo de Bombeiros que diz que podemos passar mil anos sem sermos usados, mas não podemos passar um segundo sem estar preparados. Foi exatamente isso que vivi na Venezuela.”

RBJ

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