Falar sobre educação hoje vai muito além de discutir notas, provas ou desempenho escolar. Para a educadora Débora Garofalo, mãe de Giovanna, reconhecida internacionalmente por seu trabalho inovador, o aprendizado só faz sentido quando está conectado à vida real — e quando envolve, de forma ativa, tanto a escola quanto a família.
Com uma trajetória marcada pela atuação na rede pública e projetos que ganharam repercussão mundial, como a robótica com sucata, Débora se tornou referência ao mostrar que é possível inovar mesmo em contextos de escassez. Finalista do Global Teacher Prize e reconhecida pela Varkey Foundation, ela defende uma educação mais justa, significativa e acessível.
Em entrevista exclusiva à Pais&Filhos, ela compartilha reflexões importantes, e possíveis, para quem quer participar de forma mais ativa da educação dos filhos.
Educação não começa na escola
A forma como Débora enxerga a educação está profundamente ligada à própria história. Crescida em um contexto em que estudar sempre foi visto como oportunidade de mudança, ela levou esse olhar para dentro da sala de aula — e encontrou uma realidade desafiadora.
Ao longo da carreira, percebeu que muitos alunos não partem do mesmo lugar. As desigualdades são evidentes, mas isso não significa falta de potencial. Pelo contrário: o que falta, muitas vezes, são oportunidades. “Não se trata de falta de capacidade, mas de falta de condições.”
Foi justamente a partir desse entendimento que ela passou a construir práticas que valorizam o contexto dos estudantes, tornando o aprendizado mais próximo, possível e relevante.
Quando o aprendizado faz sentido, tudo muda
Um dos grandes pontos de virada na trajetória da educadora foi perceber que o ensino tradicional nem sempre engaja. Conteúdos desconectados da realidade dificilmente despertam interesse — especialmente em crianças e adolescentes.
Na prática, ela viu isso mudar quando começou a trabalhar com projetos ligados ao cotidiano dos alunos. Temas como sustentabilidade, tecnologia e território passaram a fazer parte das atividades, e o impacto foi imediato: estudantes antes desmotivados começaram a participar mais, se envolver e assumir um papel ativo. “O conteúdo, isoladamente, não engaja nem transforma.”
Mais do que aprender, esses alunos passaram a se reconhecer como capazes, e isso muda completamente a relação com a escola.
O que as crianças precisam aprender hoje
Se antes o foco estava apenas no conteúdo, hoje o cenário é outro. Para Débora, preparar crianças para o futuro envolve desenvolver diferentes habilidades ao mesmo tempo.
Isso inclui, claro, o conhecimento acadêmico, mas também competências socioemocionais e digitais. Saber lidar com frustrações, trabalhar em grupo, se comunicar e pensar de forma crítica são aspectos tão importantes quanto aprender matemática ou português. “O grande desafio da educação hoje é integrar esses elementos em experiências de aprendizagem significativas.”
Ou seja, não é sobre escolher entre conteúdo ou habilidades — é sobre unir tudo isso de forma coerente e conectada à vida.
O protagonismo se constrói no dia a dia
Muitos pais ainda acreditam que estimular o desenvolvimento dos filhos exige recursos, cursos ou conhecimento técnico. Mas Débora desconstrói essa ideia.
Para ela, o protagonismo nasce nas pequenas experiências do cotidiano. Está na forma como a criança participa das decisões, organiza sua rotina e se expressa dentro de casa. “O protagonismo não depende de tecnologia nem de investimento financeiro.”
Abrir espaço para que a criança escolha, opine, tente e até erre faz parte desse processo. Mais do que acertar sempre, o importante é aprender a se posicionar e assumir responsabilidades.
A insegurança é comum quando o assunto é educação dos filhos. Muitos adultos sentem que não têm preparo suficiente para acompanhar o aprendizado — mas, segundo Débora, isso não deveria ser um motivo de preocupação.
O mais importante não é dominar o conteúdo escolar, mas estar presente e demonstrar interesse genuíno. “A presença, o interesse e o cuidado têm um impacto muito maior do que o domínio técnico dos conteúdos.”
Perguntas simples sobre o dia, apoio na organização da rotina e valorização do esforço já fazem diferença. E mais: criam um ambiente em que a criança se sente segura para aprender. “A educação não exige perfeição. Ela se constrói no vínculo, na escuta e na constância.”
Criatividade também se aprende — e pode começar em casa
Um dos projetos mais conhecidos da educadora nasceu de um problema real: o excesso de lixo no entorno da escola. A partir disso, ela desenvolveu atividades de robótica usando materiais descartados — iniciativa que ganhou reconhecimento internacional.
Mas o principal aprendizado vai além da tecnologia. A proposta estimula criatividade, resolução de problemas e consciência ambiental.
E o melhor: esse olhar pode ser levado para dentro de casa com facilidade. Objetos simples, como caixas e garrafas, podem virar ferramentas de criação. O importante é incentivar a experimentação.
Telas não precisam ser inimigas
Outro ponto que costuma gerar dúvidas nas famílias é o uso da tecnologia. Para Débora, a questão não está apenas no tempo de tela, mas na forma como ela é utilizada.
O consumo passivo — como assistir vídeos sem interação — pode ser equilibrado com atividades mais criativas. Produzir conteúdo, pesquisar temas de interesse ou desenvolver pequenos projetos são formas de tornar o uso mais ativo.
“Mais do que restringir, é sobre ressignificar.” Quando há orientação e propósito, a tecnologia pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades importantes.
Família e escola: uma parceria que faz diferença
No fim das contas, a educação não acontece de forma isolada. Escola e família têm papéis diferentes, mas complementares — e o impacto é muito maior quando existe alinhamento.
A família é o primeiro espaço de aprendizado, onde a criança desenvolve valores, vínculos e referências. Já a escola amplia esse repertório, promovendo convivência, troca e construção coletiva. “Não se trata de escolher entre família ou escola, mas de compreender que ambas se complementam.”
Essa parceria é o que sustenta um desenvolvimento mais completo — acadêmico, emocional e social.
Revista Pais e Filhos