Notícias

Os Comandos Nacionalistas e a situação política brasileira nos anos 60

Antes da criação dos Comandos Nacionalistas, o Brasil passava por uma grande instabilidade política e por uma disparada na inflação, sendo assim, as tensões entre ideologias políticas estavam muito intensas

Os Comandos Nacionalistas e a situação política brasileira nos anos 60
Foto: Arquivo Público RS

Os Comandos Nacionalistas ou Grupo dos Onze, eram organizações populares que foram orientadas pelo então Deputado Federal Leonel Brizola. O propósito dessas organizações populares, era pressionar o atual presidente da república João Goulart a efetivar as “Reformas de Base”. Essa expressão significa um conjunto de iniciativas que tinham como objetivo revolucionar as estruturas políticas, econômicas e sociais do país, promovendo o desenvolvimento econômico independente e a justiça social. Entre as reformas destacam-se: a reforma universitária, a bancária, a urbana, a administrativa, a fiscal e a agrária.

Antes da criação dos Comandos Nacionalistas, o Brasil passava por uma grande instabilidade política e por uma disparada na inflação, sendo assim, as tensões entre ideologias políticas estavam muito intensas. No dia 25 de agosto de 1961, o atual presidente da república, Jânio Quadros, renúncia o poder, de acordo com a constituição de 1946 o vice-presidente João Goulart (Jango), deveria assumir, porém devemos destacar que na época, as regras eleitorais estabeleciam chapas independentes para a candidatura a vice-presidente, por esse motivo Jango foi reeleito.

Jânio Quadros era alinhado aos ideais da elite e das forças armadas, ou seja, a classe dominante, já Goulart, era alinhado aos ideais mais populistas. Todas tentativas de reforma que foram conduzidas pelo atual presidente Jango, eram impopulares entre as elites (classe dominante), que eram apoiadas pelos norte-americanos, e que se organizaram com os militares para derrubar Goulart e instaurar a ditadura militar.

acreditava que João Goulart não iria aprovar uma reforma nacional, pois essa atingia muito em cheio os interesses das classes dominantes e Goulart estava tentando colocar o Brasil nos eixos, por uma política de conciliação com o PSD (Partido Social Democrática) e com outros partidos com ideologias de “direita”. Então, a criação dos Grupos dos Onze (Comandos Nacionalistas) e a pressão que a mesma poderia fornecer ao governo eram de grande importância para que os ideais de Leonel Brizola fossem efetivados dentro da política brasileira.

No ano de 1963, Leonel Brizola utilizou da rádio Mayrink Veiga e alguns outros meios de comunicação como o jornal seminário O Panfleto, e através desses meios de comunicação, Brizola convocava a população para lutar contra o poder imperialista que poderia se instaurar no Brasil, portanto, não foi de grande dificuldade conseguir uma adesão de seu discurso pela população mais carente do campo ou da cidade. Os primeiros registros dos grupos dos onze se deram em outubro de 1963, poucos meses antes do golpe civil militar brasileiro, e essa organização tardia foi seu principal ponto fraco, pois os grupos se desmobilizaram facilmente no dia 1º de abril de 1964 com o golpe.

Os Grupos no Sudoeste Paranaense

O Sudoeste Paranaense ainda estava em uma intensa tensão para com sua política, pois os Comandos Nacionalistas organizados por Leonel Brizola ocorreram oito anos após a Revolta dos Posseiros, sendo assim, os militares situados nessa região do Paraná ainda estavam em estado de alerta contra a “ameaça comunista”. O efeito dessas “ameaças” tornaram as organizações militares muito mais elaboradas, com o dobro de atenção contra a pressão popular que os Grupos de Onze exerciam sobre os políticos a favor dos ideais militares.

Um aspecto que preocupava seriamente os militares do Sudoeste do Paraná foi o fato de que as cidades que formaram essa região são linhas fronteiriças com a Argentina. Isso dificultava as buscas militares pelos integrantes dos Comandos Nacionalistas, pois se houvesse alguma desconfiança dos simpatizantes para com os militares, esses teriam fácil acesso a outro país. “No momento da prisão dos primeiros integrantes dos ‘grupos’, os demais envolvidos logo tratavam de bater em fuga”. (VANNINI; ZATTA, 2016).

Muitos Grupos de Onze estabelecidos no Sudoeste mantiveram uma estreita ligação com Brizola, alguns líderes desses grupos nessa região chegaram a se deslocar para as cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro com a intenção de receber instruções diretas de Brizola. Esse fato faz pensar que houve sim regiões muito mais organizadas, que sabiam os ideais que Brizola defendia, sabiam da importância dos grupos e que se a “batalha” fosse ganha teriam defendido a democracia brasileira. Porém, não devemos negar toda a ideia de que existiam pessoas nos grupos que entraram somente por “impulso”, sendo que uma parte das pessoas que formavam esses grupos era de origem camponesa ou agricultora pobre, sendo assim alguns achavam que iriam ganhar terras, sementes ou outras coisas como uma gratificação por terem participado desses grupos.

Como em vários lugares do Brasil, no Sudoeste do Paraná houve também inquéritos militares instaurados com a finalidade de deter os simpatizantes dos Grupos de Onze.

As cidades do Sudoeste do Paraná que mais formaram grupos, ou as que chamaram mais a atenção dos militares, foram às cidades de Francisco Beltrão, Santo Antônio do Sudoeste, Capanema, Dionísio Cerqueira e Barracão. Foi estabelecido um IPM (Inquérito Policial Militar) englobando todas as cidades citadas. Segundo o inquérito analisado, podemos verificar que cada grupo tinha um líder, esse geralmente com um grau intelectual um pouco maior que os demais, no entanto os demais membros deviam uma subordinação hierárquica para o líder. (RELÁTORIO DO IPM, 1964).

O IPM dessa região foi instaurado no dia 13 de Novembro de 1964. Meses após o golpe civil militar, quatro anos após o estabelecimento do mesmo, foi realizado um interrogatório com os simpatizantes acusados de participar dos grupos, com a finalidade de deter todos os membros envolvidos nos Comandos Nacionalistas. Sendo assim, alguns simpatizantes detidos foram sentenciados no ano de 1969 a um ano de prisão. Há de se verificar que os militares agiram com certa velocidade nessa região. Um dos motivos da mesma pode ter sido a experiência anterior com a Revolta dos Posseiros. Como em todo o Brasil, antes mesmo do julgamento que era proposto pelos militares esses propunham uma pena para os simpatizantes dos Grupos de Onze, “explicitando eminente preocupação das autoridades diante da formação e ação da organização”. (VANINNI; ZATTA, 2016).


Em alegações finais, o Dr. Procurador Militar, refere-se à denúncia, indicando os nomes dos acusados que tiveram atuação marcante na formação dos grupos de onze, em Francisco Beltrão, Santo Antônio, Capanema, Dionísio Cerqueira. Reporta-se a declarações de testemunhas, dizendo que os acusados não conseguiram elidir as imputações feitas na inicial e que, sem sombra de dúvida exerceram atividade no sentido de organizar tais grupos, obedecendo à pregação feita pelo deputado Leonel Brizola. Termina pedindo a condenação de todos a pena de um ano de detenção como incurso nas sanções do art. 36, Dec-Lei 314/67. (Senteça do IPM n° 226. Justiça Militar de Curitiba. Junho de 1969. p. 03).


Mesmo com a pena já proposta, os simpatizantes tiveram uma chance de defesa feita por um advogado de Ofício. Esse declarava que os acusados não tiveram nenhuma ligação com os Comandos Nacionalistas. Informava também que essas pessoas assinaram a ata sem saber ao certo a finalidade.

Os acusados não podiam manter nem sustentar esses agrupamentos, mesmo porque desconheciam os verdadeiros propósitos dos grupos. Transcreve trechos dos depoimentos de seus curatelados e termina pedindo a absolvição de todos, citando decisão desta auditoria, mantida pelo Egregio Superior Tribunal Militar, por unanimidade. (Sentença do IPM n° 226. Justiça Militar de Curitiba. Junho de 1969. p. 03).


Dentre todos os simpatizantes interrogados pelos militares houve um que afirmou que a sua acusação foi inválida, pois foi um “rival” de sua família que também convenceu outras pessoas a entregá-lo aos militares simplesmente pelo fato dessas famílias terem certa concorrência política entre os partidos políticos PSD (Partido Social Democrático) e PTB (Partido Trabalhista Brasileiro).

Os militares tinham certo cuidado para identificar de fato quem eram os simpatizantes dos Comandos Nacionalistas, pois uma de suas preocupações era a de analisar qual o grau de perigo que esses sujeitos ofereciam para a sociedade brasileira. Novamente o estereótipo comunista criado por esses militares influenciou nas buscas dos simpatizantes dos Grupos de Onze, segundo o relatório do IPM: “Não houve a princípio grande penetração comunista visível e os móveis da participação dos implicados estavam relacionados aos interesses da melhoria de sua situação na compra e venda de mercadorias”. (RELÁTORIO DO IPM, 1964).

Considerações Finais

Como em todo o Brasil, a configuração de organização e de estratégia dos Comandos Nacionalistas no Sudoeste do Paraná seguiu os mesmos moldes. O nome Grupos dos Onze teve sua origem graças a uma inspiração no futebol, esporte muito difundido na época entre os brasileiros. Esses grupos tentaram pressionar o então Presidente João Goulart para que se efetivasse o ideal de Leonel Brizola, que nada mais era que as reformas de Base. No entanto, como os Comandos Nacionalistas foram organizados poucos meses antes do golpe civil militar, eles não resistiram às perseguições militares e então os grupos foram desmembrados facilmente.

Brizola por meio da rádio Mayrink Veiga convocou grande parte da população para lutar em prol da democracia, isso atingiu o Brasil todo, porém, no Sudoeste do Paraná um evento ocorrido oito anos antes da formação dos grupos, fez com que os militares se organizassem melhor para deter os Grupos de Onze. Outra preocupação muito eminente nessa região foi o fato de ser fronteira com a Argentina. Isso deixava os militares mais atenciosos, em estado de alerta, pois após os simpatizantes cruzarem a fronteira, os militares não poderiam fazer mais nada.

Por se tratar de uma instituição muito organizada, o exército não deixou de criar e organizar estratégias, cartilhas para deter os simpatizantes desses grupos.

Outra estratégia de fundamental importância foi à criação da imagem estereotipada de que os participantes dos grupos eram comunistas que ameaçavam a liberdade brasileira.

No Sudoeste do Paraná os militares agiram com certa agilidade no sentido de sentenciar os simpatizantes. É possível identificar que em apenas cinco anos após a criação dos grupos e as posteriores sentenças, os mesmos já estavam cumprindo sua pena estipulada pelos militares.

 

----------------------
Receba GRATUITAMENTE nossas NOTÍCIAS! CLIQUE AQUI
----------------------

Envie sua sugestão de conteúdo para a redação:
Whatsapp Business PORTAL DE BELTRÃO NOTÍCIAS (46) 99902.0092 / (46) 2601.0898

Cotações

Clima

Terça
Máxima 30º - Mínima 18º
Períodos nublados com chuva fraca

Quarta
Máxima 29º - Mínima 18º
Céu nublado

Quinta
Máxima 29º - Mínima 19º
Períodos nublados com aguaceiros e tempestades

Sexta
Máxima 30º - Mínima 17º
Períodos nublados com chuva fraca

Sábado
Máxima 31º - Mínima 17º
Céu limpo

Sobre os cookies: usamos cookies para personalizar anúncios e melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.