Pacientes em tratamento contra o câncer são apontados como vítimas de um esquema investigado pela polícia envolvendo suspeita de falsificação de medicamentos, fraudes em licitações e superfaturamento. As investigações atingem empresas, profissionais da saúde, advogados e servidores públicos em diferentes estados.
No Rio Grande do Sul, a Operação Placebo cumpriu 56 mandados de busca e apreensão em junho. Um empresário foi preso em flagrante após serem encontradas, em sua residência, caixas de medicamentos com indícios de adulteração. Ele nega envolvimento nas irregularidades.
A investigação começou após funcionários do setor oncológico da Santa Casa de Caridade de São Gabriel desconfiarem de um lote de medicamentos. Segundo a polícia, foram identificados possíveis sinais de falsificação, como erros de grafia, alterações de coloração e textura, além de diferenças nas embalagens e bulas.
Um dos casos investigados envolve pacientes que precisavam de medicamentos não disponíveis pelo SUS. Segundo a polícia, um médico identificava os pacientes e receitava os medicamentos. Em seguida, indicava advogados para ingressarem na Justiça solicitando que o Estado custeasse o tratamento.
De acordo com as investigações, farmácias ligadas ao empresário investigado apresentavam os orçamentos dos medicamentos e acabavam sendo beneficiadas nas licitações.
Caso no Paraná
Em Cascavel, no Paraná, a investigação também apontou possíveis irregularidades na compra de medicamentos para o tratamento de Yasmin, uma menina de 12 anos diagnosticada com neuroblastoma, um tipo agressivo de câncer.
Segundo as investigações, cerca de R$ 2,5 milhões repassados pelo governo estadual teriam sido desviados, enquanto apenas parte dos medicamentos foi entregue. Yasmin morreu em fevereiro.
A mãe da menina relatou que a família acreditava que a medicação seria fundamental para o tratamento e afirmou ter descoberto posteriormente que havia sido vítima de um golpe.
O empresário investigado afirma ser inocente. Ele e um sócio foram condenados pela Justiça do Paraná por estelionato.
Suspeitas também envolvem outros estados
As investigações apontam que o esquema pode ter alcançado outros estados. Casos de suspeita de adulteração ou fornecimento irregular de medicamentos foram identificados no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará, entre outras localidades.
No Mato Grosso do Sul, a Defensoria Pública identificou suspeitas envolvendo medicamentos adquiridos por meio de decisões judiciais. Segundo a investigação, farmácias teriam apresentado preços abaixo do mercado e utilizado medicamentos importados sem registro no Brasil.
Também foram encontradas suspeitas de receitas médicas falsificadas utilizadas para a compra de medicamentos no exterior.
No Ceará, uma distribuidora que forneceu medicamentos para um paciente com câncer foi fechada pela polícia no ano passado por suspeita de falsificação. O paciente morreu em maio deste ano.
Empresas movimentaram mais de R$ 70 milhões
Segundo a investigação, empresas envolvidas no esquema movimentaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025, conforme informações da Receita Federal.
No Mato Grosso do Sul, dois funcionários da Secretaria de Saúde foram afastados sob suspeita de repassar pedidos de compra de medicamentos para farmácias. A polícia investiga se os envolvidos obtinham vantagens por meio do superfaturamento.
No Rio Grande do Sul, a perícia dos medicamentos apreendidos ainda não teve o resultado divulgado. O médico investigado e três advogados estão proibidos de exercer suas profissões.
A defesa do médico nega qualquer conduta ilícita e afirma que ele está à disposição da Justiça. As investigações continuam.
G1