O papa Leão XIV, de 71 anos, foi diagnosticado com adenocarcinoma pulmonar, um tipo de câncer de pulmão, após passar por uma cirurgia na última terça-feira (13). Em Santa Catarina, dados de 2025 do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), compilados pela Secretaria de Estado da Saúde (SES/SC), registram 1.709 mortes por câncer de pulmão no último ano.
A cirurgia no Hospital Policlínico Gemelli, em Roma, na Itália, durou cerca de 90 minutos e foi concluída sem complicações, segundo o Vaticano. A necessidade de tratamentos complementares ainda não foi informada. No domingo (11), o pontífice disse que descobriu o nódulo em estágio inicial.
De acordo com estimativas de 2023 do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de pulmão é o terceiro mais comum em homens e o quarto em mulheres no Brasil, sem contar o câncer de pele não melanoma. São estimados 35.380 novos casos por ano no triênio 2026–2028.
Em mortalidade, o câncer de pulmão é o primeiro entre os homens e o segundo entre as mulheres, segundo estimativas mundiais de 2020.
Segundo o professor Fábio May da Silva, do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o adenocarcinoma é o tipo mais frequente de câncer de pulmão e geralmente se localiza na periferia do órgão. Uma parcela significativa dos pacientes, no entanto, recebe o diagnóstico apenas em estágios avançados da doença, quando já existem metástases em outros órgãos.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do câncer de pulmão é feito principalmente por meio de biópsia, exame que permite analisar uma amostra de tecido e confirmar a presença de células cancerígenas. Segundo o Inca, a biópsia pulmonar guiada por exames de imagem é o procedimento mais utilizado, especialmente em lesões localizadas nas regiões periféricas do pulmão.
Já a broncoscopia, exame que permite visualizar as vias respiratórias, é frequentemente usada para coletar amostras de lesões centrais. Outros procedimentos, como a ecobroncoscopia, podem auxiliar na avaliação dos linfonodos próximos ao tumor.
Após a confirmação do diagnóstico, exames complementares, como PET-CT e ressonância magnética do crânio, podem ser solicitados para determinar a extensão da doença e verificar se houve disseminação para outros órgãos. Essa etapa, chamada estadiamento, define o tratamento mais adequado a cada paciente.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia é indicada principalmente nos casos em que o câncer está localizado e pode ser retirado. Uma das técnicas utilizadas é a lobectomia, que consiste na remoção de todo o lobo pulmonar onde está o tumor, como ocorreu com Leão XIV.
De acordo com o professor Fábio May, técnicas minimamente invasivas, como a videotoracoscopia e a cirurgia robótica, podem proporcionar menor tempo de internação hospitalar, menos dor no pós-operatório e retorno mais rápido às atividades habituais.
“O prognóstico e a eventual necessidade de tratamentos complementares dependerão dos resultados do exame anatomopatológico. Essa avaliação permitirá identificar as características histológicas da lesão, seu tamanho exato e a presença ou ausência de comprometimento dos linfonodos (gânglios linfáticos) retirados durante o procedimento cirúrgico”, explica o professor.
Como funciona o tratamento pelo SUS?
A escolha do tratamento depende do tipo de tumor, do estágio da doença e das condições clínicas do paciente, segundo o Inca. A avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar.
As principais opções são:
- Cirurgia: indicada principalmente quando o tumor está localizado e pode ser retirado. A lobectomia, procedimento realizado no papa, remove todo o lobo pulmonar onde está o câncer.
- Quimioterapia: utiliza medicamentos para destruir células cancerígenas ou impedir seu crescimento. Pode ser indicada antes ou depois da cirurgia e em casos de doença avançada.
- Radioterapia: utiliza radiação para destruir células tumorais ou impedir sua multiplicação. Pode ser usada em conjunto com a quimioterapia ou em situações específicas em que a cirurgia não é indicada.
- Terapias sistêmicas: incluem medicamentos direcionados a características específicas do tumor, conhecidos como terapias-alvo. A imunoterapia também pode ser utilizada em alguns casos e age estimulando o sistema imunológico a combater as células cancerígenas. Segundo o Inca, entretanto, essa estratégia ainda não foi incorporada ao SUS para o tratamento do câncer de pulmão.
Nem todos os pacientes precisam passar por todas essas etapas. Nos casos iniciais, a cirurgia pode ser suficiente ou ser seguida de tratamentos complementares, conforme os resultados dos exames.
Quais são os fatores de risco?
O tabagismo é o principal fator de risco para a doença. Segundo Fábio May, estima-se que aproximadamente 80% dos casos de câncer de pulmão estejam relacionados ao tabagismo.
“Outros fatores de risco incluem histórico familiar da doença, exposição passiva à fumaça do cigarro e exposição à poluição atmosférica”, acrescenta o professor.
O câncer de pulmão frequentemente não provoca sintomas nos estágios iniciais. Entre os sinais que merecem investigação médica estão tosse persistente, sangue no escarro, dor no peito, rouquidão, falta de ar e perda de peso sem causa aparente.
Segundo o professor da UFSC, evidências científicas demonstram que o rastreamento de pessoas com alto risco pode contribuir para a detecção precoce e para a redução da mortalidade por câncer de pulmão.
Nesse contexto, pessoas com maior risco para a doença podem ser candidatas ao rastreamento anual por tomografia computadorizada de baixa dose, sem contraste. Conforme os critérios da US Preventive Services Task Force (USPSTF), isso inclui pessoas entre 50 e 80 anos com histórico de tabagismo de pelo menos 20 anos-maço, que fumam atualmente ou deixaram de fumar nos últimos 15 anos. A decisão deve considerar os riscos, os benefícios e as condições clínicas de cada paciente.
NSC
